Prétu

Prétu é um projecto onde chullage decidiu juntar o seu próprio universo sónico ao universo mais escuro das suas letras. O resultado é a justaposição e transformação das suas origens e referências africanas, com as suas influências eletrónicas para expressar o seu pensamento sobre o colonialismo, o Pan-africanismo e o contexto político de África e da sua diáspora.

Prétu não está preocupado com género ou estilo, mas sim em poder experimentar, até sentir que as suas palavras e sons conseguiram exteriorizar ideias que o inquietam ou guiam há muitos anos, e sente terem sido amordaçadas naquele quadrado onde se deixou colocar pelo chamado hip hop tuga.

É uma conversa consigo e com a sua comunidade onde se propõe a matar o preto ou a preta que a prática colonial e racista construiu dentro de nós, para que daí, da reafricanização do espírito, possa nascer uma nova entidade prétu/préta. Uma entidade do outro futuro possível. Entidade que Amilcar Cabral chamou o novo homem e mulher africanos. Entidade que nasce dum grito semelhante ao de James Baldwin “I’m not your negro”.

Prétu não é mais um alter-ego de chullage mas sim uma rinkada, dum lugar onde há muito sente não pertencer para outro onde a arte possa ser uma forma inequívoca de se estar numa luta que ainda não acabou, numa Lisboa que se volta a vender como Luso-tropical, ou até aficana, sem nunca ter assumido que foi a metrópole dum império colonial tão bárbaro quão qualquer outro. É um movimento numa direção onde a industria cultural capitalista e etnocêntrica não tenha de ditar todas a regras e atar no tronco quem não as cumpra. É o seu Black Fire.

Ao contrario do que aconteceu nos álbuns em que assinou chullage, aqui ele produz a totalidade da sua música, a partir dum universo de samples que sempre tiveram ressonância em si ou que fizem parte das suas memórias de infância. Os seus sons são também o processo de procura por musica africana politicamente engajada. Além disso é uma tentativa de emancipação duma perspetiva afroamericana que se impõe a outras cosmovisões de luta contra a opressão. Aos samples junta programações scom influencias do dub, ao batuku, kilapanga, hip hop ou grime.

É também em prétu que funde outras linguagens pela qual se interessa muito, como o vídeo e o teatro e se colabora com artistas que vibram em frequências próximas.